22.1.08

O mar e a areia

Simplicidade...
O mar segue a sua rotina
A areia solidária lhe recebe: dissoluta...

Insistem numa eterna reconciliação:
o encontro e o adeus.

Despedem-se para se reencontrar,
e deixam que o outro guarde sempre
um pouquinho de si...
memória real e presente

Fábula que ensina
pela presteza com que serve
ao anseio de ternura.

O mar e a areia:
O lençol contínuo que une os grãos
(tão juntos, mas de laços tão fracos)
como o amor faz com a aridez
repulsiva do homem
para com ele mesmo.

(São Paulo – 20/06/2007)

11.1.08

O inimigo invisível (o bem e o mal)

Sente a dor
Doma o ódio
Refaz-se o ser

Os caminhos se abrem
Os pés, descalços,
Sangram no avançar

A peleja é intensa,
Pretensa e sutil
Esconde-se, dissimulada

Inimigos vestidos como amigos
Parasitas que embebem o verbo
Na calda adocicada da sedução

Operam num mundo à parte
Repleto de motivos segundos
Que persistem ocultos

Cobram a consideração
Como alicerce de execução
Do plano obscuro

A ingenuidade, aguerrida,
Insiste na lide:
Esperançosa

Mas a maldade
(por inconsciente que seja)
não se compadece:
fustiga, desafia,
tortura e açoita

Mal sabe o mal
Que a diferença
Não é de natureza
É mera questão de grau

O bem prevalece...
Pisado, escarnecido
Vilipendiado
Qual degrau humilde
Que descende
Para servir de apoio
A quem busca
O alto, em desespero
Para fruir aquilo
Que antes era desprezado:
A paz.

O bem não faz oposição
Submete-se
Num didatismo consciente
E resistente

Abdica da vitória imediata
Ilustrando, complacente,
O caminho da eterna derrota

É feito a água
Que a tudo obedece
Mas não pode ser vencida
Respeita as impermeabilidades
E sorri das antipatias,
Correndo no seio de quem a convida

Fluidez solidária
Gregária
Cuja perseverança dobra
Até a dureza das pedras

Com palavra repetida
Vai removendo os excessos,
Começando por fora,
Polindo o ser, calmamente
Até acessar o centro
De sua existência
Onde mora a vida.

O mal combate o bem
Por lhe invejar
O adiantamento
Rebela-se, engenhoso,
Contra a distância inapelável
Na busca de atalhos
Para a alma

Termina por esgueirar-se,
Cego de toda orientação,
Por trilhas circulares
Que só cansam
E não fazem avançar.

(São Paulo – 04/01/2008).

Desapontamento

Roguei aos céus
As bênçãos de uma vida completa
Prosperidade em cada momento
Fartura para qualquer sentimento
Quis o melhor pra mim

Pedi pelo sol
Mas recebi a chuva
Queria a alegria,
A dor e a desdita
Vieram me visitar
Insisti em pensar na vida
Como uma seqüência delongada
De risos e satisfações
Alternada com pequenas invasões
De filetes de pensamento:
Inconstantes como o mar revolto
Cujas ondas se entretecem
Numa lógica superior

Ah! Meus pensamentos!
Crianças endiabradas
Gritando por atenção
Debatendo-se entre si
Por um bafejo de concretização
O sonho máximo:
A verbalização.

O passaporte é a inspiração
E como é pedante viver sem ela!
Busco-a nos recantos mais insólitos,
Nas estéticas mais exóticas,
Em ações singelas que me traduzam
O sentido verdadeiro do viver.

Viver
Um campo aberto
Onde cada qual olha
Aquilo que lhe convém
Seja um capricho
Ou um entusiástico Amém!

(Comunidade do Marujá – Ilha do Cardoso – SP/PR – 02/01/2008)

Ano Novo

Fim de ano
Desfecho de um ciclo
O sopro derradeiro de um impulso
Carinhosamente cultivado:
A paz interna.

Dilemas, contradições
Aversões e insistências
Prédicas tão implícitas,
Muitas vezes esquecidas,
Exaltam-se descontroladas
Pelas sendas estreitas
das contrariedades cotidianas

É tempo de olhar para dentro;
De acender um incenso
De aprender que a vida se estende
Para além do que os olhos vêem
De amar sem medo
Mesmo que com cautela

É tarefa árdua o fechamento
De etapa qualquer
As revisões são necessárias

A nervura de nossa acanhada
Compreensão, exposta, pulsante,
Impõe a expansão compulsória
Do entendimento...
Seu veículo: a dor.

Sofrimento calado e intenso
Reverbera dentro das entranhas
De nossa individualidade
(espessa e impermeável
à mudança)
E nos expulsa do conforto
Inebriante da estagnação.

O sorriso que emancipa
E resolve uma negação qualquer
O grito estentórico represado
Que, por uma ínfima rachadura,
Faz verter o rio caudaloso
De nossas mágoas mais profundas

Pode ser uma gargalhada
Ou uma leve sensação de
Prosperidade
Um olhar de soslaio que se desdobra
Na mais linda imagem do amor.

Tanto faz, é bem verdade
Se é uma tempestade
Ou um incansável dia de sol
Os opostos convivem
Sequenciam-se em respeito mútuo
Às vezes, sobrepõem-se
Como a tristeza que ebule
Em lágrimas camufladas de alegria
E o riso desenfreado que oculta
A devastação do ser.

O fechamento exacerba
O movimento de mudança:
Constipa algumas respirações
Emancipa outros pensares
Escraviza novos desejos

Destrói, desconstrói
Demole e erige
As estruturas perecíveis
De nosso viver
Num incessante ciclo
De aprimoramento e educação
De nossos sentimentos...
Enfim, de nosso olhar.

Que venha, então, o Ano Novo,
Nascendo já maduro
Em relação ao velho.

(Comunidade do Marujá – Ilha do Cardoso – SP/PR – 30/12/2007)