Sente a dor
Doma o ódio
Refaz-se o ser
Os caminhos se abrem
Os pés, descalços,
Sangram no avançar
A peleja é intensa,
Pretensa e sutil
Esconde-se, dissimulada
Inimigos vestidos como amigos
Parasitas que embebem o verbo
Na calda adocicada da sedução
Operam num mundo à parte
Repleto de motivos segundos
Que persistem ocultos
Cobram a consideração
Como alicerce de execução
Do plano obscuro
A ingenuidade, aguerrida,
Insiste na lide:
Esperançosa
Mas a maldade
(por inconsciente que seja)
não se compadece:
fustiga, desafia,
tortura e açoita
Mal sabe o mal
Que a diferença
Não é de natureza
É mera questão de grau
O bem prevalece...
Pisado, escarnecido
Vilipendiado
Qual degrau humilde
Que descende
Para servir de apoio
A quem busca
O alto, em desespero
Para fruir aquilo
Que antes era desprezado:
A paz.
O bem não faz oposição
Submete-se
Num didatismo consciente
E resistente
Abdica da vitória imediata
Ilustrando, complacente,
O caminho da eterna derrota
É feito a água
Que a tudo obedece
Mas não pode ser vencida
Respeita as impermeabilidades
E sorri das antipatias,
Correndo no seio de quem a convida
Fluidez solidária
Gregária
Cuja perseverança dobra
Até a dureza das pedras
Com palavra repetida
Vai removendo os excessos,
Começando por fora,
Polindo o ser, calmamente
Até acessar o centro
De sua existência
Onde mora a vida.
O mal combate o bem
Por lhe invejar
O adiantamento
Rebela-se, engenhoso,
Contra a distância inapelável
Na busca de atalhos
Para a alma
Termina por esgueirar-se,
Cego de toda orientação,
Por trilhas circulares
Que só cansam
E não fazem avançar.
(São Paulo – 04/01/2008).
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