23.7.08

Bolinha de algodão...

Eu queria ter o dom
de uma bolinha de algodão...
... afagar, cuidar, curar
seu desapegado coração

Esse versinho fora de hora
vem de fora;
do ar, do céu, do som
da minha alma a pensar

Alma um pouco cansada
querendo cantar, dançar, amar
Aprendendo a viver
ao te olhar

Olhar intenso
iluminado
misterioso
irresistível

Poesia de um andante
que andou bastante
Que viu num oásis
algo incrível

O brilho, o amanhecer,
o sangue se aquecer
A pele pedindo seu vento,
seu gosto
seu sentimento

E assim vai o andante
querendo ser leve como a brisa,
suando a camisa
para ir além do pesamento,
da sensação, da canção....

Pedindo a Deus
uma bolinha de algodão...

(Poesia de minha amiga Sabrina, no ocaso de si própria, atuando como o leito de um rio, que é invadido por águas caudalosas de sentimentos aviltados, transbordando em direção ao mar sem fim).

15.6.08

Amor de Exposição

Enquadraram o amor
Deram-lhe a moldura cara
Encheram-no de interpretações
racionais, científicas
atribuíram-lhe sentido,
intenção, significado
depois, penduraram-no na parede
uma decoração pomposa.

Para as visitas que passam,
(assim, rapidamente)
Admirarem o que, de mim,
nunca receberão
Pois é meu, minha obra-prima.

Em verdade, encontrei-o já na casa
em que nasci
mas ele estava feio, simplório
à flor da pele.

Lembrei do progresso inadiável
sofistiquei-o sob minha propriedade.

É bem certo que, antes
Ninguém queria tomá-lo de mim.
Deitava e rolava sobre ele,
despreocupado.

Um dia me disseram
que ele valia muito
Escassez de mercado,
quebra de safra
resolvi fazer provisões
amedrontadas,
desconfiadas.

Agora, ninguém o alcança lá no alto...
nem eu.

(São Paulo – 23/08/2007)

4.5.08

Susto Inclemente

Para Amanda


Acordei e você havia partido
revirei meus sentimentos
e não encontrei qualquer alívio
ficamos sós, no compartimento
(tão calado, tão sentido)
da perplexidade que em nós se arrima.

Procuro nos braços e nos ouvidos outros
A carícia que nunca mais virá de suas mãos...
O conselho sábio na hora
Em que a vida me diz “não”.

Transito a esmo, seguindo a vontade
De quem me quer bem
e não vejo destino qualquer...
nem a paz que me convém.

O tom acinzentado dos meus dias
me remete à sua presença:
fico presa à idéia sufocante
de sua ausência.

Ouço palavras, reparo em gestos,
Respondo, sorrio, choro...

Mas, minha dor, eu não empresto:
é minha benção, parte do meu trajeto,
a senda estreita em meu caminho;
o espinho a proteger a flor da sabedoria
que a vida me fez portar.

Se nem tudo são pétalas de rosa,
Transformo a tristeza em poesia...
não em verso ou em prosa
mas no amor que guardo à vida.

São Paulo, 28/03/2008.

28.3.08

Haikai

A alma opressa
Vaga na solidão:
A culpa vai sem pressa
Na trilha do perdão.

São Paulo, 18/03/2008

Sacerdócio

O Santo volta,
bate perna,
e dá por norma,
sob a cruz que carrega,
que Deus vigora...
mas a Lei não pega.

São Paulo, 18/03/2008

Discência

Bate o sino
A realidade palpita
Arvorada em maldição
Promovendo a arruaça
Dentro do meu descanso

Pude aprender
Lições esparsas e,
Por força do interesse,
Me deixei levar:
Dominado que fui
Pela força cavalar
De minha consciência
Ainda inerme.

Olho para o futuro
E a incerteza desenlaça
O medo que albergo
No arremate de minhas
Céleres e impetuosas fantasias

Discernir entre ação e plano,
Presente e porvir...
No mata-borrão dos pensamentos
O pincel das emoções trafega:
Solto e desgovernado
Misturando presente,
Futuro e passado.

Na uniformidade confusa
Das cores homogêneas,
Enceto o depurar cauteloso
À procura dos tons primários
Que me formam o ser.

Apenas ali,
Na origem funda
Da indivisa solidão...
Recobro minha discência
E o caminhar tão meu
Que, ao longo do caminho, se perdeu.


São Paulo, 27/03/2008

20.3.08

Bússola da existência

Dentro de mim
descubro o que serei,
vasculho os cantos do que sinto
e me admiro dos sonhos
e da vontade de ser
aquilo que já sou
(mas ainda não logro ver )

O gênio é exceção
não por privilégio
de uma difusão iníqua
de escassos e divinos sortilégios

Genialidade é olhar para si
encontrar a bússola de sua existência
servindo aos propósitos maiores
com humilde obediência

Não é se destacar,
como pôr-se em evidência
é desacoplar-se da trilha
que ruma à conveniência
(que de si faz a convenção)

O gênio encontra em si
um mapa, um roteiro de vida
que se lhe abre lentamente
na medida de seu avanço
e de seu merecimento..

São Paulo, 19/03/2008

10.2.08

Leoa de Deus (ou elogio da libertação)

Segue livre o teu caminho:
liberta, como deve ser,
do jugo ignorado
de a mim “pertencer”.

Histeria e exatidão
motivam e perpassam
o movimento descontrolado
de um animal enjaulado
na busca da emancipação.

Perdôo-te a insensatez
por carecer da desrazão
dos valores rasos,
aconchegados no orgulho
e na ambição.

Meu espírito te ressuscita
com voto de gratidão
pela peleja de amor
que encetaste até o fim.

Nasce de novo, Leoa de Deus
mostra a tua força
nas cinzas das horas...
abdica dos caminhos que te seduzem.

Firma-te sobre a Pedra
que escolheste para,
harmoniosamente,
erigir a igreja de tua vida,
de teu amor.

Deixa o passado
para o presente de teus atos
agindo silenciosamente,
assimilado...

Fecho a porta do pretérito
e enegreço o retrovisor
para oferecer-te o contraste
dentre as formas futuras que,
no horizonte,
adquirem seus contornos.

Arquivo o que já se foi
para, finalmente,
apreciar o teu porvir
despacho o nosso “a dois”
na certeza franca de que o vivi.

(São Paulo – 07/02/2008)

22.1.08

O mar e a areia

Simplicidade...
O mar segue a sua rotina
A areia solidária lhe recebe: dissoluta...

Insistem numa eterna reconciliação:
o encontro e o adeus.

Despedem-se para se reencontrar,
e deixam que o outro guarde sempre
um pouquinho de si...
memória real e presente

Fábula que ensina
pela presteza com que serve
ao anseio de ternura.

O mar e a areia:
O lençol contínuo que une os grãos
(tão juntos, mas de laços tão fracos)
como o amor faz com a aridez
repulsiva do homem
para com ele mesmo.

(São Paulo – 20/06/2007)

11.1.08

O inimigo invisível (o bem e o mal)

Sente a dor
Doma o ódio
Refaz-se o ser

Os caminhos se abrem
Os pés, descalços,
Sangram no avançar

A peleja é intensa,
Pretensa e sutil
Esconde-se, dissimulada

Inimigos vestidos como amigos
Parasitas que embebem o verbo
Na calda adocicada da sedução

Operam num mundo à parte
Repleto de motivos segundos
Que persistem ocultos

Cobram a consideração
Como alicerce de execução
Do plano obscuro

A ingenuidade, aguerrida,
Insiste na lide:
Esperançosa

Mas a maldade
(por inconsciente que seja)
não se compadece:
fustiga, desafia,
tortura e açoita

Mal sabe o mal
Que a diferença
Não é de natureza
É mera questão de grau

O bem prevalece...
Pisado, escarnecido
Vilipendiado
Qual degrau humilde
Que descende
Para servir de apoio
A quem busca
O alto, em desespero
Para fruir aquilo
Que antes era desprezado:
A paz.

O bem não faz oposição
Submete-se
Num didatismo consciente
E resistente

Abdica da vitória imediata
Ilustrando, complacente,
O caminho da eterna derrota

É feito a água
Que a tudo obedece
Mas não pode ser vencida
Respeita as impermeabilidades
E sorri das antipatias,
Correndo no seio de quem a convida

Fluidez solidária
Gregária
Cuja perseverança dobra
Até a dureza das pedras

Com palavra repetida
Vai removendo os excessos,
Começando por fora,
Polindo o ser, calmamente
Até acessar o centro
De sua existência
Onde mora a vida.

O mal combate o bem
Por lhe invejar
O adiantamento
Rebela-se, engenhoso,
Contra a distância inapelável
Na busca de atalhos
Para a alma

Termina por esgueirar-se,
Cego de toda orientação,
Por trilhas circulares
Que só cansam
E não fazem avançar.

(São Paulo – 04/01/2008).

Desapontamento

Roguei aos céus
As bênçãos de uma vida completa
Prosperidade em cada momento
Fartura para qualquer sentimento
Quis o melhor pra mim

Pedi pelo sol
Mas recebi a chuva
Queria a alegria,
A dor e a desdita
Vieram me visitar
Insisti em pensar na vida
Como uma seqüência delongada
De risos e satisfações
Alternada com pequenas invasões
De filetes de pensamento:
Inconstantes como o mar revolto
Cujas ondas se entretecem
Numa lógica superior

Ah! Meus pensamentos!
Crianças endiabradas
Gritando por atenção
Debatendo-se entre si
Por um bafejo de concretização
O sonho máximo:
A verbalização.

O passaporte é a inspiração
E como é pedante viver sem ela!
Busco-a nos recantos mais insólitos,
Nas estéticas mais exóticas,
Em ações singelas que me traduzam
O sentido verdadeiro do viver.

Viver
Um campo aberto
Onde cada qual olha
Aquilo que lhe convém
Seja um capricho
Ou um entusiástico Amém!

(Comunidade do Marujá – Ilha do Cardoso – SP/PR – 02/01/2008)

Ano Novo

Fim de ano
Desfecho de um ciclo
O sopro derradeiro de um impulso
Carinhosamente cultivado:
A paz interna.

Dilemas, contradições
Aversões e insistências
Prédicas tão implícitas,
Muitas vezes esquecidas,
Exaltam-se descontroladas
Pelas sendas estreitas
das contrariedades cotidianas

É tempo de olhar para dentro;
De acender um incenso
De aprender que a vida se estende
Para além do que os olhos vêem
De amar sem medo
Mesmo que com cautela

É tarefa árdua o fechamento
De etapa qualquer
As revisões são necessárias

A nervura de nossa acanhada
Compreensão, exposta, pulsante,
Impõe a expansão compulsória
Do entendimento...
Seu veículo: a dor.

Sofrimento calado e intenso
Reverbera dentro das entranhas
De nossa individualidade
(espessa e impermeável
à mudança)
E nos expulsa do conforto
Inebriante da estagnação.

O sorriso que emancipa
E resolve uma negação qualquer
O grito estentórico represado
Que, por uma ínfima rachadura,
Faz verter o rio caudaloso
De nossas mágoas mais profundas

Pode ser uma gargalhada
Ou uma leve sensação de
Prosperidade
Um olhar de soslaio que se desdobra
Na mais linda imagem do amor.

Tanto faz, é bem verdade
Se é uma tempestade
Ou um incansável dia de sol
Os opostos convivem
Sequenciam-se em respeito mútuo
Às vezes, sobrepõem-se
Como a tristeza que ebule
Em lágrimas camufladas de alegria
E o riso desenfreado que oculta
A devastação do ser.

O fechamento exacerba
O movimento de mudança:
Constipa algumas respirações
Emancipa outros pensares
Escraviza novos desejos

Destrói, desconstrói
Demole e erige
As estruturas perecíveis
De nosso viver
Num incessante ciclo
De aprimoramento e educação
De nossos sentimentos...
Enfim, de nosso olhar.

Que venha, então, o Ano Novo,
Nascendo já maduro
Em relação ao velho.

(Comunidade do Marujá – Ilha do Cardoso – SP/PR – 30/12/2007)