Vejo só o que se dispersa
Em neblina intensa, e
Fala alto em imagens diversas
Transponho sem perceber
Os limites que a existência
Em sua aviltada essência
Apregoa para o meu crescer
Se há virtude no sofrimento
É aquela que ensina a rir
Da dor pungente e incontinente
No desagrado que é o sol a fugir
E a aventura que desponta
No horizonte das novas chances
Reverbera a estereoscopia
Em seu minimalismo latejante
De obras vive a compostura
Masculina a despojar-se
Em sua grandeza ínfima
Na agudeza da solidão que lhe costura
Sem pés nem mãos
As palavras fluem
Sem estrépito suavizam
O torpor que se destitui
Transformando reflexão em inação
Angústia em letargia
Sofrimento em depressão
Medo em covardia
De que vale então
Nessa intensa conjugação
De versos e rimas
A mente em convulsão?
Nada além disso:
Um retrato espicaçado
Sem cultura e prateado
De um corar indolor e submisso
Procurando a foz
Do rio adocicado
Que compele o salgado atroz
A refrear a irritação do pó
De alma branca impetuosa
Que, em dose branda
Aprimora o sabor
E em excesso... saciação desgostosa
Na poesia nasce o meio
Que, do equilíbrio só faz se despedir
Pois a vida é extremo a combalir
A simetria que se busca no alheio
(São Paulo, 12 de dezembro de 2005 - flat do David – Higienópolis)
Obs.: esse é um dos poemas mais rebuscados e complexos que já escrevi. Confesso que ainda não esgotei todas as possibilidades de interpretação imediata. Cada verso representa muitas dimensões de um período conturbado que estava vivendo no momento em que foi escrito. A presença de meu amigo David, célebre economista, facilitou a psicografia dessa poesia (psicografia tida, aqui, como a expressão literal daquilo que está na mente, em seus espaços conscientes e inconscientes).
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